
Ai o amor, o amor (suspiro). O dia em que os namorados celebram mais um ano de cerco cerrado no coro, as miúdas esperam que o dia acabe para pôr termo à relação e os solteirões, tristes e solitários, quando não estão a colar músicas deprimentes no facebook passam o dia na cozinha a afiar a faca do presunto. É sempre interessante constatar que nem o próprio Valentim consegue reunir consensos à volta do amorrrrrr. Desde as cantigas de amigo do D. Diniz até ao “Tu Levaste a Minha Vida” de António Carreira que esse bicharoco impiedoso, obsessivo e fatal, ataca pelas traseiras do raciocínio, escoltado pelas hordas de borboletas que tomam a barriga de assalto. Para nos explicar melhor a complexidade deste ornitorrinco sentimental apresentamo-vos uma série de questões bastante profundas e de uma sensibilidade atroz que nem o Nicholas Sparks poderia emular. Como nós somos pobrezinhos em ouro mas ricos em sonhos, convidamos o “Paulo Coelho” e a “Margarida Rebelo Pinto" dos
Dear Telephone para um bate-boca hilariante. Ah, e se virem por aí um gajo com um arco e uma flecha telefonem imediatamente para o 112. Não vá o diabo tecê-las.
1.Na Mitologia Grega, a Afrodite Uraniana é vista como uma figura celestial, representando o amor de corpo e alma, enquanto a Afrodite Pandemos está associada com o amor puramente físico. Qual das duas levarias contigo em tour?
André Simão: Levava a Ucraniana, claro.
Amor de corpo e alma faz muita falta em carrinhas podres e hoteís baratos. Depois, quando estás a tocar, precisas de focar alguém no público (aprendi isto com a mademoiselle GC) e prefiro um anjo a flutuar sobre a multidão do que a multidão a submergir a minha Pandemos desvairada.
2. O twist da Mia Wallace no Pulp Fiction ou o descruzar de pernas “fatal” da Sharon Stone?
Graciela Coelho: Se a intenção é ajoelhar meio mundo, dispenso Uma suadela e o cheiro do Travolta (que provavelmente cheira mal, mesmo depois do banho). Conseguir, em 3 segundos, marcar para sempre o universo masculino acordado e quando dorme, é obra só ao alcance daquela Sharon, naquele ponto de caramelo. Certo Simão?
3. Esta não vale exclusão de partes, Simão. Fátima Lopes versão tijela em “All you need is love” ou versão franja no “Perdoa-me”?
AS: Quando essa senhora apareceu, trouxe uma espécie de candura rural à TV. E logo com um pedaço maravilhosamente pioneiro de telelixo cor-de-rosa. A tijela, a evocar os anos 20 ou a Twiggy, mereceu-me um ou dois levantares de sobrancelha. Depois abriu a boca e não, não a “perdoo”.
4. Graciela, desvende esta curiosidade do público masculino. Afinal o que é que o Leonard Cohen tem que o comum macho alfa não atinge?
GC: O lado feminino. Que está onde deve estar, ou seja, escondido. Também ajuda fumar melhor que o Dean, escrever bem que doí e evitar carnes vermelhas. Ah, e descobriu aquele truque de escrever uma canção de despedida para cada uma das que ia deixando para trás, que na realidade era um aceno para a que se seguia. Tem de ser mesmo muito gaja, o matreiro.
5. Que tens a dizer a todos os “forever alone’s” deste país?
AS: Ia escrever passar uma temporada sem internet, mas como não sou nada pragmático seguiria o sapientíssimo conselho do Lloyd Cole: “lean over on the bookcase, if you really want to get straight, read Norman Mailer. Or get a new tailor”.
6. Reza a lenda que Valentim foi um bispo romano que acabou preso e mais tarde decapitado, já depois de se ter apaixonado pela filha do carcereiro. Será uma fatalidade que todos os apaixonados percam a cabeça desta forma?
GC: Não é uma fatalidade, é uma benção (não no sentido que os bispos dão à palavra). O pobre Valentim deve é ter gasto as 50 vidas com que começamos o jogo.
7. Terá sido Valentim um hippie enterrado em ácido, André?
Se fosse não ligaria puto à filha do carcereiro e apaixonava-se por uma sensualíssima serpente azul que - descobriria no pico de uma ressaca - não passava duma daquelas almofadas em rolo que transformam qualquer noite - tirando as dum hippie enterrado em ácidos - num inferno.
8. Se é verdade que elas preferem os carecas, isso terá alguma coisa a ver com a calvície do Santo António?
GC: O Malkovich devia ter uma estátua em cada parvónia, patrocinada por todos os carecas que se safam à conta daquelas que gostam de fechar os olhos e imaginar que é o Malkovich que...
9. Barcelos tem mais cara de sonho molhado para amantes ou pesadelo cor-de-rosa para rejeitados?
AS: Nesse aspecto Barcelos não tem carácter de exclusividade. É universalmente reconhecido que, da sacristia do bispo Valentim ao quarto do Ritz onde o Marlon Brando fingia dormir durante as gravações do Último tango, a vida vai girando entre essas duas caras da mesma moeda.
10. O que tens a dizer aos brasileiros que insistem em reconstituir o buço das portuguesas. Não vale invocar os sovacos das francesas.
GC: Sugeria umas sessões de terapia de choque com hairy porn dos 70’.
11. Também optas pela psicologia invertida ao lidares com o sexo oposto, André? Do género, interpretar um seco “sim, podes sair com os teus amigos que eu não me importo” como um “SE GOSTASSES DE MIM, FICAVAS AQUI COMIGO!!!”
AS: Opto por inverter a psicologia invertida: se a boca diz “sim, podes sair com os teus amigos que eu não me importo”, o consciente diz “SE GOSTASSES DE MIM, FICAVAS AQUI COMIGO!!!”, logo, no subconsciente esconde-se um “matei dois coelhos com uma cajadada: saímos ambos sozinhos, mas ele é que vai passar a noite com dor na consciência”.
12. Será o dia de S. Valentim uma conspiração global para tramar todos os solteirões e mulheres que vão ficar para tias?
GC: Pelo contrário. É um truque do destino para embalar todos os pombinhos em restaurantes apinhados e mal decorados. Assim, sobra muito mais espaço e dignidade no mundo cá fora.
13. André isto cá para nós. Aquele Casillas é um pulha do pior. Convenhamos, quem não gostaria de beijar uma Carbonero depois de ser campeão do mundo? Quero com isto dizer que a ousadia do rapaz foi manifestamente sobrevalorizada, concordas?
Confesso que fiquei preocupado com eles quando vi a cena. Sabes aquele beijo demasiado aceso para ser dado em público que mais parece um “vá, ao menos hoje, quando chegarmos a casa, porra, afinal, ganhei o mundial, arre..”?
Aposto que ninguém reparou na palmada subtil no rabo da respectiva do David Villa.
14. A Whitney Houston morreu e toda a gente desatou a “cantar” o “I will always love you”. Como estão os teus agudos no chuveiro, Graciela?
Muito melhor do que na banheira! Em pé ofereces mais espaço ao diafragma e se levantares o queixo permites aos pulmões contrair e expandir mais facilmente. Experimenta com a tua ária favorita e verás (não vale assobios à Andrew Bird nem falsetes à Tom Yorke).
15. Com aquele narizinho empinado e gostando assim tanto de videojogos, achas que a Lana del Rey vai jantar sozinha amanhã?
AS: Devias saber que a malta como a Lana só está sozinha nos videoclips e nas letras das canções.
16. A qual destas três personalidades gostarias mais de dar uma tampa: David Guetta, John Bon Jovi ou B. Fachada?
GC: Admitindo que o Bon Jovi vinha logo de jacto fretado com banheira de hidromassagem e o Fachada armava uma cena romântica num restaurante ou no metro, sem dúvida o Guetta. Despachava-o, com o dedo do meio, numa discoteca barulhenta.
17. Se for verdade o que a Rita Lee diz – “amor é prosa, sexo é poesia” – como explicas que escritores como o Hemingway, o MEC ou o Hank Moody fossem uns mulherengos de primeira, enquanto o Pessoa para se entreter inventou uma porrada de heterónimos?
AS: Pensa que o Hemingway teve de vir para a Europa para se safar com as miúdas, que o MEC só é mulherengo nos livros (e em Lisboa nos anos 80, o que não dá grande currículo, já que a cidade nessa altura era uma espécie de coelheira com extasy à descrição) e que o Hank Moody nem sequer existe. Agora imagina o Pessoa tipo o Bateman do America Psycho, a levar o Álvaro de Campos a fumar cigarros ao terraço do Lux, o Ricardo Reis a citar clássicos às amigas eruditas em passeios perto do S. Carlos ou da Culturgest, e o Caeiro numas investidas às turistas no Palácio da Pena.
18. Achas que a PJ Harvey se tornou mais lamechas e baladeira desde que acabou com o Nick Cave?
GC: O universo da PJ é um bocado seca. Gosto dos primeiros álbuns, com as guitarradas. Acho que ficou só com o pior do Cave. O que já não é mau.
19. Chegamos às clássicas. Qual foi a coisa mais louca que fizeste por amor?
GC: Dar a mão a um ex-namorado em pleno shopping.
AS: Babar-me para cima duma carta a fingir que eram lágrimas, para borratar os coraçõezinhos.
20. Quem gostarias que estivesse do outro lado do telefone, amanhã?
AS: For inspiration purposes only, a Demi Moore deprimida, abandonada na mansão de Malibu.
GC: Será que anda perdida no espaço alguma chamada do Al Pacino de há uns 30 anos atrás?
Texto: Manuel A. Fernandes
Fotografia: DR Dear Telephone
Etiquetas: Quizz