Alex Keiling, cantautor do projecto "The Wooden Wolf", esclarece algumas curiosidades ao Rock Rola em Barcelos. Com a apresentação do seu disco de estreia "14 Ballads Op.1" na manga, o músico francês, de Estrasburgo, iniciou a sua tour lusitana dia 13 de Fevereiro, em Lisboa. Teremos o prazer de o receber em Barcelos, dia 23 de Fevereiro, no Salão Nobre da Câmara Municipal. Entretanto, não faltam datas de concertos do lobo por Portugal fora.
Primeiro, gostávamos de saber como é que nasceu o projecto The Wooden Wolf?
O projecto nasceu quando eu percebi que não estava satisfeito com a minha banda anterior “Alex Keiling & the Mary Jill band”, que era mais folk e alegre (percussões, contrabaixo, violoncelo). Percebi que desejava executar novas músicas, de alguma forma mais escuras e lentas.
Quais são as tuas maiores influências? Como é que chegaste até elas?
Bem, o engraçado é que se pode ser influenciado por artistas com os quais não se tem grande relação mas, ainda assim, eles têm poder sobre ti. E outros que são muito importantes e os ouves todos os dias, podem não soar à mesma música que tu fazes. De qualquer maneira, quando era criança os meus pais punham-me a ouvir de tudo - clássica, world music, Leonard Cohen, Cat Stevens, Pink Floyd. Depois, já com 10 anos de idade eu descobri Nirvana, ACDC, Smashing Pumpkins. Hoje em dia, os meus artistas/compositores preferidos são Bonnie ‘Prince’ Billy, Jason Molina (Songs: Ohia), Dirty Three e o Leonard Cohen ainda é um deles.
Eu tive uma namorada, há 7 anos, que tinha muito bom gosto musical e fez-me descobrir muitos artistas que eu hoje adoro. Ainda hoje partilhamos música entre nós, apesar de não estarmos mais juntos.
Alguma vez tiveste suporte familiar no conhecimento da música?
Eu acho que viver numa casa onde todos cantam juntos como um coro, me ajudou muito. A minha mãe improvisava algo na casa-de-banho e os meus irmãos e eu apenas pulávamos a cantar partes diferentes no nosso quarto. Eles não tocam propriamente nenhum instrumento, mas têm um grande amor pela música e partilhavam-no.
Em que momento é que decidiste que querias começar uma carreira a solo?
Decidi começar a minha carreira a solo há cerca de um ano atrás. Porque eu tinha músicas lentas e tristes que realmente queria tocar e percebi que seria muito mais fácil e mais livre executá-las por minha conta.
Porque é que Alex Keiling quer incarnar um lobo de madeira (wooden wolf)? O que é que isso significa?
O lobo é muito importante para mim porque é livre. Conheci um poema francês sobre lobos e cães quando era criança que, desde então, permaneceu para mim muito importante. O cão é gordo, tem uma casa, está a ser alimentado e cuidado, em suma é tratado. Enquanto o lobo é selvagem, magro, sujo, esfomeado, mas não tem coleira e pode correr para onde quiser.
Como é que descreves “14 ballads Op.1”?
Como posso descrever o meu álbum? Bem, não é o meu trabalho fazer isso. Tome a liberdade de o fazer.
Como foi o processo de composição e gravação?
Tentei gravar e escrever as minhas canções quase simultaneamente, no intuito de capturar a atmosfera certa em que elas nasceram. Eu sou preguiçoso e gravei tudo por minha conta, por isso demorei mais um pouco. Não consigo simplesmente entrar num estúdio e gravar tudo durante uma semana. Tenho que esperar pelo momento certo no meu espaço. Então, escolhi compartimentos: a biblioteca (a minha sala de estar) é boa porque os livros absorvem o som, o meu quarto é fixe porque é feito de madeira em todo o lado e a casa-de-banho é boa para os reverbs por causa das telhas. Tento esperar até ao meio da noite, assim há menos hipótese de ter um camião a criar ruído. Costumo beber para me pôr bem-disposto.
Em duas músicas do álbum (“Out of sight in the direction of my body” and “Horses in the storm”) usas o poeta francês Paul Éluard como influência. Como é que a tua música se relaciona com a poesia dele?
O meu poeta favorito é Paul Éluard. É um génio e muito forte com as palavras. Não precisa de rimas, métricas ou versos para fazer um poema relevante. Gosto da maneira como pensa e acho que para mim é uma grande influência. Não estou particularmente orgulhoso por traduzir um poema seu para inglês porque não se deveria fazer isso, mas queria mesmo partilhá-lo.
Quais são os temas principais das tuas canções? Como é que os escolhes? Em que elementos te inspiras?
Acho que o tema principal é o amor (excepto nas improvisações que não têm realmente um tema). Eu apaixonei-me há dois anos e foi a coisa mais poderosa que já vivi, foi paixão mas que não podia funcionar porque era em demasia. Ela era como fogo, charmosa como fogo, doida como fogo, instável como fogo e ardia como fogo. E, bem, eu acho que nós apenas nos queimamos e então tive que deixá-la ir. Talvez soe ridículo e banal escrever canções de amor, mas isso é o que faz o mundo girar, por isso não devo ficar envergonhado.
As músicas ‘Horses in the Storm’, ‘Interlude2 (drunk with you)’ e ‘No name #5’ são improvisos. Estas músicas estão acabadas? Ou ainda podem sofrer alterações?
Fiz muitos improvisos, mas só me atrevi a manter três deles porque os outros talvez estavam excessivos (demasiado estranhos, demasiado crus).
Portanto para essas três canções que mencionaste, no início pensei que nunca iria/conseguiria cantá-las novamente por serem o que são. Então, muitas pessoas ficaram desapontadas comigo por não cantar “Horses in the Storm”, por isso decidi trabalhá-la e apreendê-la. É muito estranho entrar dentro de uma das tuas próprias canções. Acho que nunca vou cantar as outras duas canções nem nenhuma das minhas improvisações. Não me sinto bem a fazê-lo.
Vens a Portugal para uma Tour. Já estiveste em Portugal?
Nunca fui a Portugal e estou muito feliz e ansioso por ir.
Quais são as tuas expectativas?
Espero conhecer pessoas boas, aprender um pouco de português, descobrir maravilhosos fadistas locais, descobrir refeições deliciosas. Para ser honesto, diria também que espero embebedar-me com os marinheiros lusitanos e cair nos braços de uma bonita sereia portuguesa.
E o que é que nós podemos esperar?
O que vocês podem esperar de mim? Vou cantar as minhas músicas de olhos fechados, um pouco desconchavado na minha cadeira, estarei tímido e talvez pareça triste e misterioso, mas quando falar com vocês (locais) e nos divertir-mos, verão que não sou deprimido. Não estou muito à vontade no palco. Acho que também podem esperar que esteja cansado, por tocar todas as noites.
Tens planos para o futuro do lobo?
Sim, tenho muito planos para o lobo! Programas de rádio, videoclips, inaugurações, festas de lançamento. e vou gravar um EP que só será editado em vinil. E talvez me mude para Berlim nos próximos meses.
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